VALSA FANTÁSTICA
No arraial do Salto
Grande, Bahia e Minas se extremam.
Pequena e triste a
povoação. Três ruas acanhadas — casas baixas, caiadas de tabatinga, telhas à
mostra, nuas de forro e de assoalho, raquíticas —, lembrando, vistas de longe,
pontos de giz em lousa escura.
Raros transeuntes
vagueiam. A trechos, pastam bois fulvos — grandes e impassíveis —, abanando a
cauda com tédio, circunspectamente.
Amarradas aos
portais, mulas seladas esperam os cavaleiros.
Zumbem-lhes moscas
amareladas (mutucas), em torno do pescoço, das orelhas, das ancas, às tontas,
num sussurro morno, pulverizando o ar de pequeninas manchas movediças.
Surde um vaqueiro: —
monta a cavalgadura de um salto.
Veste de couro,
pistola à cinta, nos pés largas esporas tintilantes.
Soa o estalo do
rebenque. E o animal se afasta, pausado, grave, ritmicamente.
Ecos de palestras
lânguidas vibram com moleza. Bandos de pintainhos felpudos, guiados por
galinhas obesas, faíscam no lixo, soltando pios frouxos.
Paira um silêncio
sonolento e tépido...
Mas, dominando tudo,
soturnamente vaga, rola pelo ambiente a voz distante de uma espécie de rugido,
lúgubre e rouco.
Toada surda, cortada
de uivos, que se propaga, esmorece, avoluma, murmura, morre, consoante o rumo
do vento.
É do Tombo Grande do
Jequitinhonha, a uns dois quilômetros do arraial.
Os habitantes têm-lhe
medo. Alguns, vivendo de há muito no povoado, nunca se atreveram a ir vê-lo.
Contam-se dele
histórias terríveis.
Fantasmas, à
meia-noite, passeiam-lhe as ribanceiras.
Engole por ano dez a
doze pessoas, número avultado para a população.
Três dias antes, um
bom canoeiro, o José, fora arrastado pela correnteza e desaparecera. Coitado!
Filho único, 23 anos, rixoso, alegre, esforçado rapagão!
A mãe chorava, rezando. O povo repisava o fato
em conversas baixas, lamentando, com conselhos prudentes e comentários
trágicos, grifados de gestos de terror.
*
* *
Chovia e ventava
quando fui, com três camaradas, visitar o Tombo.
Chuvisco esguio, em
cordões diamantinos, gradeando a atmosfera opaca...
No fio elástico que
me prendia o chapéu ao paletó, assoviava o vento, finíssimo.
Fôramos obrigados a
fechar os guarda-sóis. O orvalho nos pontilhava o fato de miúda escama
cintilante. No caminho pedregoso, um limo pardo fazia escorregar. Andávamos de
gatinhas, às vezes.
Rochas à direita,
rochas à esquerda, rochas no fundo, rochas em cima, rochas em baixo e na frente
de nós, rochas sem fim.
Um cárcere de
granito, um labirinto de pedras. O próprio firmamento parecia enorme rocha cor
de cinza.
E eram rochas de um
bizarro escuro carregado: — pedaços de noite tempestuosa petrificados.
Caminhávamos havia
meia hora. O rugido se aproximava e crescia.
Já mal nos podíamos
ouvir. Tiritávamos.
A espaço, perdíamos o
pé em côncavos cheios d’água, semelhante a bílis.
Dentro, animais
viscosos mexiam-se lentos.
Pássaros agoureiros
se erguiam a nossos passos, num voo preguiçoso, sumindo-se de pronto entre as
arestas. Asas plúmbeas: — despendiam, batendo-as, rumor triste.
Galgamos, a custo,
íngreme ladeira. Resvalavam-nos os pés. Dávamo-nos a mão uns aos outros,
cautelosamente.
O estrondo se tornara
poderoso, pleno, retumbante, com repercussões profundas. À neblina da altura
casara-se outra, vinda de abismo invisível. Dir-se-iam batalhões de diamantes
pequeninos, cruzando-se, emaranhando-se, à desfilada, em refrega intensa.
Nevoeiro úmido subia
também, enovelando. Pingos grossos se nos vinham esborrachar na face. Seguíamos
silenciosos, indecisos, entre ansiedade e medo.
De repente, a uns
trinta passos, avistamos a catadupa.
Imponente e horrível!
A água toda do Jequitinhonha, depois de um percurso de centenas de léguas,
engrossada de milhares de torrentes, espumejante do despenhamento de trezentas
cachoeiras, após se haver precipitado pelos cinco enormes degraus de uma escada
de gigantes, arremessava-se, enfim, do Grande Tombo, alucinada, atroadora,
formidável, entre muralhas negras, quebrando-se, torcendo-se como acrobata
titânico, crivado de rendas e de ouropéis argênteos, a deslocar-se em
exercícios de ginástica assombrosa!
*
* *
Chama-se Tombo da
Fumaça. Estreito e alto. Rodeiam-no, como sentinelas revestidas de armadura,
paredes elevadíssimas, carcomidas na base, de formas fantásticas.
Promontórios longos,
como braços secos, adiantam-se a espaços, mergulhando no abismo. Em alguns
pontos, arredondam-se buracos escuros, lembrando grande órbitas vazias. Quando
molhados, ou através da bruma, semelham olhos vítreos de monstros, fixos e
espantados.
Mais além,
levantam-se para o ar grimpas agudas, num gesto de ameaça hirta.
Perpétuo véu de névoa
envolve tudo, esgarçado aqui e ali por esguichos violentos.
Sente-se a emanação
da profundeza. Há anfractuosidades, recôncavos, jatos de pedra, rochas
retorcidas, numa convulsão imóvel, como se surpreendesse a paralisia em
contorção espasmódica de dor.
Medo incerto nos
penetra. A vista torvelinha. No ouvido já não ribomba o estrépito, mas ruído
perfurante, que sacode o cérebro e desafina os nervos.
A montanha d’água
desmorona pesada, rapidamente bruta, volumosa e ampla.
Tomba no vórtice com
ímpeto pujantemente elástico. Engolfa-se em cachões, incha em estouros.
Comprimida pelas rochas, fechada em parênteses, ferve e pula, entrançada,
arquejante, com espuma lívida e uns ofegos de cansaço irritado, que a levantam
desesperadamente.
Depois, corre
voraginosa. Surge novo obstáculo. Como que medrosas, as rochas se retraem,
opondo-lhe barreira semicircular.
Arremete contra elas,
furiosa; e, colhida de súbito, revoluteia, turbilhonando em rebolo. É o
sorvedouro, o rodopio, o redemoinho.
Só de o fitar, vêm
vertigens. A caudal reboca-se aí com rapidez incalculável, estuando, girando,
rolando, rodando, em espirais — cuspindo espuma sobre as ancas das muralhas
pretas. Nem um peixe pode ali viver.
Exala fumaça úmida, como o hálito salivoso de
enorme fera.
Não sei qual mais
belamente horrível: se a catadupa, despenhando formidavelmente, se aquele
movimento circular, contínuo e tonto, que atrapalha a visão, encadeia os olhos,
atraente e irresistível, com magnetismo que anestesia e puxa para a morte.
*
* *
De repente, notei uma
coisa a se debater no remoinho.
Apontei. Fitamos a
vista e vimos distintamente um corpo humano que girava com a água.
Era o cadáver do
canoeiro, do José, arrastado para ali pela correnteza. Rolara pelo Tombo e fora
cair no sorvedouro de onde o movimento rotatório o impedia de sair.
Aos poucos, fomos-lhe
observando os traços. Tinha os braços arqueados, o busto inclinado, ventre para
baixo, na posição de quem cinge alguém.
Trajava calça de
ganga. Nu da cintura para cima, ensanguentavam-lhe o tronco manchas rubras de
feridas.
As oscilações bruscas
da corrente davam-lhe estremecimentos de vida. Não se lhe distinguia o rosto. Intumescera.
De onde estávamos, se nos afigurava enorme.
Ao estrépito do
Tombo, desvairado por aquela música possante e estranha, dir-se-ia que valsava
uma valsa macabra.
Era-lhe par a água
flexível. Cingidos em estreito abraço, abraçavam unidos. O valsista ora
descrevia círculos longos e frementes, enquanto a cauda de rendas brancas da
dama — a espuma — se espalhava em franjas, roçando nas rochas — ora, num
frenesi louco, partia mais rápido, em círculos mais curtos, a ofegar, em
delírio, valsando sempre.
Às vezes, batia com a
cabeça nas pedras. Recuava de pronto, ágil e leve, e recomeçava a valsar, sem
perder o compasso fantástico.
Na música, a sons
entorpecedores seguiam notas agudas, de estremecer.
Escorriam no ritmo
morbidezas letais.
A onda apresentava
meneios lascivos e lânguidos, ou tremores repentinos de comoções histéricas.
Serpenteava-lhe a cauda longa e donairosa, acompanhando os volteios, lambendo a
voragem.
Calafrios corriam.
Percebiam-se arquejos e soluços na dança insensata.
Num passo arrojado, o
valsista abalroou mais de rijo na pedra.
Afastou-se
destramente até o centro, onde o abismo se afunda em funil. Os pés decaíram-lhe
e ele pôs-se a prumo. Grave, sério, correto, fez-nos elegante mesura, sacudindo
a cabeça. Depois, saudoso do par, que continuava a valsar sozinho, atirou-se
apaixonadamente sobre ele e desatou de novo a valsar.
Vimos-lhe então
perfeitamente o rosto. Olhos consideravelmente abertos e parados, escancarada a
boca, na expressão desesperada de quem se apresta para morder. Esboçava,
entretanto, um largo riso sarcástico. E à orquestra, infernal prosseguia, cada
vez mais furiosa, a valsa sem fim.
O cumprimento
pareceu-me um convite. Veio-me vontade de imitar o valsista, de apertar
igualmente nos braços a sua dama untuosa e pérfida.
A música ensurdecera.
Suavizara-se agora em cadências aveludadas que infiltravam suave letargia.
Notas acetinadas produziam arrepios de etérea sensualidade. As pálpebras
fechavam-se sob a pressão de sono macio. Tudo em torno valsava: as montanhas,
as pedras, as nuvens, a chuva, a própria catadupa.
Como resistir?
Tremia-me o corpo, os ouvidos zuniam-me, cambaleavam-me as pernas: — suava,
apesar do frio.
Dei um passo para a
frente, disposto a ceder. Meus companheiros olharam-me e compreenderam.
A atração do abismo
atuava energicamente sobre mim.
Carregaram-me. Mais
um minuto e estaria perdido.
*
* *
Na volta ao povoado,
o Pantaleão — homenzinho magro, franzino, de voz rachada —, ouvindo-me contar
onde se achava o cadáver:
— Vou tirá-lo para o enterrar — disse com
simplicidade.
— Impossível —
retorqui.
— Fui seu amigo. Não
o posso deixar sem sepultura.
— Mas arrisca-se a morrer também.
Levantou os ombros e
despediu-se.
Pensei que não
passasse aquilo de bravata imprudente e o Pantaleão renunciasse ao temerário
projeto.
Horas depois, tocava
o sino na capela do alto. A população se movia curiosa. O Pantaleão cumprira a
palavra!
Descendo as muralhas
quase a pique, amarrado a uma corda presa em cima, apoiando os pés nas concavidades,
exposto mil vezes a tombar no vórtice, conseguira, após insano labor, laçar o
corpo do amigo por uma perna. Depois, com longa vara, impeliu-o para fora do
rodopio. Fê-lo cair na correnteza, e, segurando o comprido liame, foi pescá‐lo
abaixo, num pequeno remanso.
Chamou-o a si,
colocou-o numa rede, e, solicitando então auxílio de companheiros, conduziu-o
para a igreja.
Fui abraçar o
Pantaleão. Encontrei-o impassível a cavar a cova para o José.
Ora — disse a sorrir
ante os meus cumprimentos —, o senhor em meu lugar faria o mesmo...
Senti-me pequenino,
diante daquele homem tão pequenino.
*
* *
E corri à igreja para
ver de perto o valsista.
Estava cheia a
modestíssima nave. Grupos consternados mexiam os lábios devagarinho,
cochichando orações. Crianças pálidas e seminuas andavam soltas, balbuciando
palavras de terror.
Exalava-se o sino em
fúnebres arrancos, despedindo notas breves e pausadas, como reticências
sonoras.
Nos intervalos,
ouvia-se a enxada do Pantaleão, baqueando, ao lado, surdamente no solo.
Ninguém se aproximava
do centro, onde, numa penumbra, o corpo imóvel destacava.
Horroroso! Já não
tinha forma humana. O crânio se fendera, gotejando aguadilha verde. No sítio
dos olhos, buracos escuros e sem fundo.
Da boca, enormemente
dilatada, pendia um molambo de carne gangrenada. Não seria mais asqueroso o
cadáver de uma víbora hidrópica.
O ventre abaulado e
redondo fazia proeminência como um bolo. Os tecidos dos braços se desprendiam
rachados. Placas violáceas marchetavam o tronco.
Moscas tontas zuniam
em roda.
Fétido insuportável
saía daquela coisa infecta e informe que fora um homem. Miasmara‐se o ambiente.
Todos cuspiam
enjoados, com a mão no nariz.
De repente, afastando
os grupos, desesperada, uma mulher idosa se precipitou sobre aquilo. Caiu de
joelhos, tomou uma das mãos do cadáver, e, chorando, soluçando, cobriu de
beijos carinhosos a massa dos membros apodrecidos.
Achegaram-se todos com respeito, chorando
também.
Era a mãe!
---
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.
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