O Reverendíssimo padre João era a criatura
mais feliz do mundo. Nada tinha que o preocupasse.
Dessem-lhe bom vinho, boa mesa, boa cama e bom
rapé e ele nada mais queria.
Alto, gordo, forte, cheio de vida e saúde,
vivia alegre, desde pela manhã até à noite.
Por isso era chamado o "Padre sem
cuidados", e ninguém conhecia de outra forma.
O governador da cidade onde morava o
reverendo, era um homem doente do fígado, mau, rancoroso, e cheio de inveja.
* * *
Como vivia sempre enfermo e aborrecido, a
alegria dos outros incomodava-o.
Dispondo de um poder sem limites mandou
chamá-lo a palácio, e disse-lhe bruscamente:
— "Você é que é o Padre sem
cuidados?" "Saberá vossa excelência que assim me chamam".
— "Por quê?"
— "Porque vivo alegre, contento-me com a
minha sorte, e não tenho cuidados de espécie alguma".
— "Pois eu vou lhe dar alguns
cuidados", disse o déspota. "Hoje é sexta-feira; de hoje a sete dias,
na próxima sexta-feira você há de vir aqui a estas mesmas horas, e responder-me
às três perguntas seguintes: "Quantos cestos de terra tem o morro da
cidade? Quantas estrelas há no céu? Em que estarei pensando quando estiver
falando com você?"
O padre João foi para a casa preocupadíssimo.
Pela primeira vez na vida, deixou de jantar, rir e pilheriar como costumava.
Vendo aquele fato estranho, seu criado indagou
o que sucedera e ele narrou a entrevista com o governador.
— "Pois se é isso meu amo não se incomode,
deixe a coisa ao meu cuidado", disse o fiel servo.
O padre ficou um pouco mais tranquilo,
conquanto ainda bastante impressionado.
* * *
Chegando a sexta-feira marcada para a resposta
das três perguntas, o criado, que era muito magro e barbado, raspou a cara,
cortou o cabelo, abriu coroa, vestiu a batina, do amo, e compareceu à audiência.
—"Olé! disse o governador ao avistá-lo.
"Então já não é mais o Padre sem cuidados? Parece que os teve bastante
durante a semana... Pelo menos está mais magro".
E sorria-se intimamente satisfeito, por ter
feito o padre se incomodar.
O servo, disfarçado em padre, der uma desculpa.
— "Bem, vamos lá a saber",
prosseguiu o governador. "Quantos cestos de terra tem o morro?"
— "Conforme", respondeu o criado.
"Se o cesto for do tamanho do morro, tem um; se for da metade, tem dois;
se da quarta parte, tem quatro; se for da oitava...
— "Basta!", interrompeu ele.
"Vejo que você é fino. Vamos à segunda: Quantas estrelas há no céu?"
— "Há... tantas...", falou o criado,
dizendo em número elevadíssimo. "E se o senhor governador não acreditar,
pode mandar contá-las".
O governador calou-se, mais logo depois interrogou
de novo:
— "Em que é que eu estou pensando?"
—"Vossa excelência está pensando que fala
com o reverendíssimo padre João sem cuidados, mas está falando com o seu
criado".
O governador riu-se da astúcia do dedicado servo,
nunca mais se importou com a vida de ninguém, e começou a passar mais alegre.
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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2025)
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