3/25/2025

O padre sem cuidados ("Histórias da Baratinha"), por Figueiredo Pimentel


O PADRE SEM CUIDADOS

O Reverendíssimo padre João era a criatura mais feliz do mundo. Nada tinha que o preocupasse.

Dessem-lhe bom vinho, boa mesa, boa cama e bom rapé e ele nada mais queria.

Alto, gordo, forte, cheio de vida e saúde, vivia alegre, desde pela manhã até à noite.

Por isso era chamado o "Padre sem cuidados", e ninguém conhecia de outra forma.

O governador da cidade onde morava o reverendo, era um homem doente do fígado, mau, rancoroso, e cheio de inveja.

* * *

Como vivia sempre enfermo e aborrecido, a alegria dos outros incomodava-o.

Dispondo de um poder sem limites mandou chamá-lo a palácio, e disse-lhe bruscamente:

— "Você é que é o Padre sem cuidados?" "Saberá vossa excelência que assim me chamam".

— "Por quê?"

— "Porque vivo alegre, contento-me com a minha sorte, e não tenho cuidados de espécie alguma".

— "Pois eu vou lhe dar alguns cuidados", disse o déspota. "Hoje é sexta-feira; de hoje a sete dias, na próxima sexta-feira você há de vir aqui a estas mesmas horas, e responder-me às três perguntas seguintes: "Quantos cestos de terra tem o morro da cidade? Quantas estrelas há no céu? Em que estarei pensando quando estiver falando com você?"

O padre João foi para a casa preocupadíssimo. Pela primeira vez na vida, deixou de jantar, rir e pilheriar como costumava.

Vendo aquele fato estranho, seu criado indagou o que sucedera e ele narrou a entrevista com o governador.

— "Pois se é isso meu amo não se incomode, deixe a coisa ao meu cuidado", disse o fiel servo.

O padre ficou um pouco mais tranquilo, conquanto ainda bastante impressionado.

* * *

Chegando a sexta-feira marcada para a resposta das três perguntas, o criado, que era muito magro e barbado, raspou a cara, cortou o cabelo, abriu coroa, vestiu a batina, do amo, e compareceu à audiência.

—"Olé! disse o governador ao avistá-lo. "Então já não é mais o Padre sem cuidados? Parece que os teve bastante durante a semana... Pelo menos está mais magro".

E sorria-se intimamente satisfeito, por ter feito o padre se incomodar.

O servo, disfarçado em padre, der uma desculpa.

— "Bem, vamos lá a saber", prosseguiu o governador. "Quantos cestos de terra tem o morro?"

— "Conforme", respondeu o criado. "Se o cesto for do tamanho do morro, tem um; se for da metade, tem dois; se da quarta parte, tem quatro; se for da oitava...

— "Basta!", interrompeu ele. "Vejo que você é fino. Vamos à segunda: Quantas estrelas há no céu?"

— "Há... tantas...", falou o criado, dizendo em número elevadíssimo. "E se o senhor governador não acreditar, pode mandar contá-las".

O governador calou-se, mais logo depois interrogou de novo:

— "Em que é que eu estou pensando?"

—"Vossa excelência está pensando que fala com o reverendíssimo padre João sem cuidados, mas está falando com o seu criado".

O governador riu-se da astúcia do dedicado servo, nunca mais se importou com a vida de ninguém, e começou a passar mais alegre.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2025)
 

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