A gaivota azul
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O encanto de Miss Anne a bordo era uma dessas lindas gaivotas do polo, de alto pescoço gracioso e de uma alvura radiante, tocada levemente, nas asas, de uma nuança de azul.
Possuía-a havia um ano. Dera-lha o praticante da galera, uma manhã de
julho, na costa da Groenlândia. Fora após uma grande luta com duas baleias, que
tinham sido arpoadas pela meia noite no paralelo 70, junto à ilha de Hooker,
sob esse clarão nebuloso e perene das noites polares. As lanchas as perseguiram
durante seis horas, numa faina contínua, finda a qual os arpões as venceram.
Mas antes disso a embarcação que o rapaz patroava tivera algumas tábuas
arrancadas ao fundo pela terrível rabanada de um dos cetáceos, que a levara a
encalhar num iceberg próximo, em
cujas finas agulhas de gelo pousavam bandos e bandos de pássaros marinhos.
Enquanto os tripulantes da baleeira tomavam os rombos com lonas alcatroadas, o
George Dinger, com a sua espingarda inglesa, percorria a grande massa gelada,
derrubando algumas aves, entre as quais uma bela gaivota azul, que, viva e mal
ferida numa asa, debatia-se, aos gritos, sobre um cabeço alto. Apanhada a laurus glaucus, ao voltar para bordo da galera, oferecera-a a Miss Anne, que era
louca pelas aves do mar.
A graciosa menina irlandesa nunca mais a deixara, tratando-a como uma
boneca, fazendo dela o seu encanto. Pusera-lhe o nome de Hope, esperança, e trazia-a continuamente ao colo, cobrindo-a de
mimos e beijos, repetindo-lhe de instante a instante, na sua adorável
ingenuidade, como a uma companheira querida, palavras de doçura e meiguice — oh my dear! oh, my darling!
Pela manhã, quando deixava o camarote, surgia no salão da câmara já com a
gaivota nos braços, a dar-lhe pedacinhos de biscoutos, miolo de nozes e passas.
E mesmo às horas de leitura, das longas leituras britânicas, muito fundas e
cismadas, com um grosso volume de Cooper sobre o regaço, nos vastos sofás das
anteparas da câmara ou no seu camarim sobre os estreitos beliches envernizados,
junto ao vidro das vigias, afagava-a ternamente, envolta nas suas vestes de
peles sob o frio boreal. A tarde, nas latitudes mais quentes, enquanto a galera
bordejava, com os grandes corpos dos cetáceos amarrados às bordas, na extração
desse óleo utilíssimo que faz a riqueza dos armadores baleeiros de Mugford e do
Donegal, vinha brincar para o tombadilho, empoleirando a gaivota nas enxárcias
de ré, ou fazendo-a esvoaçar pela borda, presa de uma fita escarlate.
E era essa, agora, a diversão predilecta da filha do capitão Thomas Reider,
um valente marinheiro, de tez lisa e cor de lacre, apesar dos seus quarenta
anos de lida no mar. Cruzando os oceanos polares durante o verão, quer nas
regiões boreais, quer nas austrais, esse gigante das vagas, desde que casara,
na primeira metade da sua mocidade, ativo e ambicioso, encetara o comando de
navios baleeiros, de onde se tiravam então riquezas incalculáveis. As suas
primeiras viagens foram em navios do Canadá, e com tal êxito se acentuaram para
ele, que, dentro de seis anos, passara a armar por sua conta, em Foyle, na
Irlanda, de onde era a mulher, formosa loura do Donegal, de forte descendência
marítima, cujos antepassados haviam perecido heroicamente nas grandes
expedições árticas. A morte desta, porém, numa invernação dolorosa no polo,
onde todos estiveram quase perdidos, logo após o nascimento de Anne, na sua esplêndida galera Mermayd, desgostara-o de
tal modo que vendera os seus navios e bens, e, voltando ao Canadá, passara
alguns anos em terra, com um Ship-chandler,
para educar a filha e descansar um pouco dos labores do mar. Mas o negócio
fora para trás, durante uma grave pneumonia que quase o matara, e, perdido
tudo, apenas se restabelecera, embarcara outra vez para a pesca polar. E ali
ia, agora, aos sessenta anos e pobre, só com aquela filha adorada, no alto
casco da Farewell, para as águas
austrais.
Miss Anne era uma menina de quinze anos, alta e cheia, de um busto de
giganta das Sagas, robusta, setentrional. Tinha os cabelos crespos e cor das
praganas dos milhos, a pele fina e rosada, os olhos de um verde de onda do
largo. A boca fresca e polpuda, vagamente recortada em flecha, abria-se, sobre
os dentes de neve, como um traço carminado. E do seu talhe alto e forte de
deusa britânica, dourada pelo sol do mar, um resplendor saía, nimbando-a de tal
graça e beleza, que se diria uma aparição dos Edas, surgindo, loura, das vagas.
George Dinger, que era um rapaz brasileiro, de cabelos castanhos e olhos
negros inflamados, posto que filho de yankee,
mal pisara o convés da galera impressionara-se por Miss Anne. E no espaço
de quase três anos em que ali andava, cruzando as zonas polares, o seu coração
enamorado não cessara um só instante de palpitar e gemer por aquela rapariga
divina, que lhe arrebatara a alma. Mas a visão loura das Sagas, na sua ingenuidade saxônia, durante muito tempo não lhe dera
a menor atenção. E era embalde, e timidamente, que ele, às vezes, à mesa, lhe
dirigia a palavra, amoroso e tartarmudeante; ou que, pelas tardes veladas do
polo, ou sob os luares idealizadores dos céus tropicais, a envolvia em seus
cantares, fitando-a meigamente da borda, sob as velas enfunadas.
Miss Anne não passava de uma verdadeira criança com um porte colossal. Um
dos seus entretenimentos mais queridos eram os jogos que, nos dias de calma e
boa monção, lhe arranjava o piloto na tolda. Esse bom velho hércules, rosado e
de barbas grisalhas, que, apesar de solteirão amava as crianças com um
enternecimento paternal, fazia consistir, de algumas vezes, as suas
brincadeiras em correrias loucas atrás da menina, como se brincassem ambos o Tempo será; de outras, em agarrá-la
pelos braços e balouçá-la da borda sobre as ondas espumantes — tudo isso por entre
um alegre tumultuar de exclamações e risadas...
É o pobre George Dinger, debruçado da borda, ou de pé junto ao leme quando
estava de quarto, vendo-a tão indiferente ao seu amor, suspirava baixo, num
despeito e com um vago ar magoado.
Mas na ocasião em que estivera quase a morrer contra a ilha de Hooker, na
perigosa arpoagem daquela manhã de julho — o pior dia de pesca que experimentara depois que andava na Farewell — uma esperança de que a rapariga viesse a
perceber o seu grande afeto por ela nasceu-lhe
subitamente na alma ao apanhar a linda gaivota azul. Desde então, com efeito,
Miss Anne se lhe tornara mais amiga, e, com a ave sempre ao colo, no tombadilho
ou na câmara, quando se encontravam, falava-lhe com certa meiguice,
envolvendo-o na doce luz dos seus olhos.
Com o
pretexto de afagar a gaivota, ele jamais se descuidava de se aproximar dela,
dirigindo-lhe de contínuo elogios e graças. Assim, dentro em pouco, começou a
nascer entre ambos uma certa intimidade. Horas e horas, então, pelas manhãs
transparentes e pelas tardes suaves, sentados alegremente na tolda ou junto das
amuradas, apreciavam a aurora ou o crepúsculo fulgindo em chamas de nácar sobre
a vastidão do oceano, ao mesmo tempo que carícias langues de amor voavam de
lábio a lábio, no murmúrio vago das ondas quebrando contra o costado. E a gaivota
azul entre ambos como um talismã sagrado!
Um dia, porém, ao deixarem o hemisfério do norte, a linda ave fugira. Miss
Anne, inconsolável e num pranto, fechada no camarim, não quisera falar ao
namorado, nem subira ao tombadilho. Ele também, por seu lado, triste e
suspiroso, corria todo o navio, à procura da gaivota, que era a sua felicidade
na vida.
Mas a
gaivota do polo lá ia por esses mares, em busca das terras árticas...
E o capitão,
indiferente, ria alegre com o piloto, enquanto a galera veleira singrava,
airosa, à bolina.
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